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27 Mar, 2017

De médica à paciente: Reaprendendo a Medicina, Por Dra. Luisane Vieira

Iniciamos a ultima semana de depoimentos com a Dra. Luisane Vieira, médica patologista, que dedicou sua carreira especialmente à qualidade e segurança da assistência e à criação do PALC – Programa De Acreditação de Laboratórios Clínicos, da SBPC/ML.

Em 2015, Dra. Luisane teve que mudar seu papel de médica para paciente e desde então se sente fazendo uma pós-graduação obrigatória para tratar de sua Leucemia.

Sua história de superação é emocionante e exemplar.

Em agosto de 2015, após alguns meses sentindo-me muito cansada, veio o diagnóstico de Leucemia Primária de Células Plasmáticas, a qual tem algum parentesco com o Mieloma Múltiplo. Apesar de ser Patologista Clínica, tenho pouca intimidade com a área de Hematologia e a profundidade da situação me escapou no começo. Fui absorvendo aos poucos o significado de ser portadora de uma doença letal e das consequências do tratamento proposto de quimioterapia seguida de dois transplantes de medula óssea em tandem (primeiro autólogo e depois, com sorte, alogênico). Por uma decisão muito visceral e imediata, nunca li uma linha sobre a minha doença nem sobre o meu tratamento, e nada posso informar, a não ser a sua gravidade e raridade.

Até então, de maneira bastante intensa, minha missão médica estava profundamente vinculada ‘a qualidade e a segurança da assistência, mesmo que obliquamente, por meio do meu envolvimento com a criação e com a evolução do PALC, o programa de acreditação de laboratórios da SBPC/ML. Acreditava e acredito na centralidade do interesse do paciente em todas as ações dos profissionais da saúde.

Mas, ao tornarmo-nos em pacientes, todas as teorias vão por terra e passamos a viver na pele todas as contradições do nosso precário sistema de saúde. Ao mesmo tempo em que temos profissionais brilhantes, cujo conhecimento científico se nivela ao de qualquer profissional de elite do mundo, não temos acesso a todos os medicamentos e procedimentos que eles acreditam eficazes e precisamos judicializar o tratamento, o qual muitas vezes será decidido com base em opiniões não baseadas nas reais necessidades médicas. Há várias outras questões inquietantes, dolorosas e contundentes, mas esta me parece uma das mais cruéis e cada vez mais frequente em nosso país.

Na Mitologia Grega, o trio formado pelo deus Apolo, seu filho Asclépio e pelo centauro Quíron originou a Medicina. Quíron criou Asclépio e, como era portador de uma ferida incurável, compreendia a dor dos enfermos e exercia a sua thaerapéia (do grego, servir ao divino) com maestria. Não que seja desejável que todos os profissionais de saúde (ou qualquer pessoa) sejam acometidos por uma doença que cause grande sofrimento, mas os gregos tinham razão. Esta é a melhor (e talvez a única) forma de comungar verdadeiramente com a nossa essência humana, frágil e mortal.

Desde o início da minha Leuka (assim a batizei) me sinto como se estivesse fazendo um novo curso de Medicina, ou melhor, uma exigente pós-graduação. Tenho me dedicado a compreender a Medicina Paliativa, a qual cuida dos pacientes com doenças incuráveis, terminais ou não. E tenho me encantado e me consolado com a grandeza, a humanidade e a compaixão que reside em minorar o sofrimento, sem que haja necessariamente conflito com a Medicina Curativa. E tenho encontrado exercendo esta missão nobre muitas mulheres excepcionais. Talvez porque o cuidar tenha sido tão profundamente entranhado em nós por todas as mulheres que nos antecederam e que abraçaram a missão sagrada de fazer sobreviver seus filhos. Obrigada, irmãs. E um obrigada especial ‘a minha irmã, que me doou sua medula. Recebi o presente mais precioso de todos: tempo.

Mulheres, se unam, se apoiem, se cuidem.

Luisane_Careca1

  • 27 Mar, 2017
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